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Dra. Renata Viana S. Diciomo – Reumatologista em Vila Mariana, São Paulo – SP

O termo espondiloartrite vem do grego: espondilo significa “coluna” e artrite significa “inflamação nas articulações”.
Mas, ao contrário do que o nome sugere, as espondiloartrites não afetam apenas a coluna: elas formam um grupo de doenças reumáticas que compartilham características clínicas, genéticas e inflamatórias. Elas podem comprometer articulações periféricas (como joelhos, tornozelos e quadris), tendões, olhos, pele e até o intestino.

Essas doenças têm em comum:

  • A inflamação crônica;
  • A associação com o gene HLA-B27 (em parte dos casos);
  • E a tendência a começar em pessoas jovens, geralmente entre 20 e 40 anos.

Por que as espondiloartrites ocorrem?

A causa exata ainda não é totalmente conhecida.
Sabe-se que há uma interação entre fatores genéticos e ambientais.
Ou seja, pessoas com predisposição genética (como o HLA-B27 positivo) podem desenvolver a doença após uma infecção ou outro gatilho imunológico.

O sistema imunológico, que normalmente protege o corpo, passa a atacar as próprias articulações e tecidos, gerando inflamação e dor.

Os Principais Tipos de Espondiloartrites

As espondiloartrites formam uma “família” de doenças que compartilham sintomas semelhantes, mas têm características próprias.

Os principais subtipos são:

  1. Espondilite Anquilosante (EA)
  2. Artrite Psoriásica (APs)
  3. Artrite Reativa (ARt)
  4. Espondiloartrite Enteropática
  5. Espondiloartrite Indiferenciada
espondiloartrites
espondilite anquilosante
artrite psoriásica
artrite reativa

Vamos entender cada uma delas.

1. Espondilite Anquilosante (EA)

A espondilite anquilosante é talvez o tipo mais conhecido.
Ela causa inflamação principalmente na coluna vertebral e nas articulações sacroilíacas (região entre a coluna e o quadril).

A EA é mais comum em homens jovens e tem forte associação com o gene HLA-B27.

Sintomas Principais

  • Dor lombar crônica e rigidez que melhoram com o movimento, não com o repouso;
  • Rigidez matinal;
  • Dores (alternadas) nas nádegas;
  • Fadiga intensa;
  • Em fases mais avançadas, pode ocorrer anquilose — fusão das vértebras, levando à limitação dos movimentos da coluna.

Outras Manifestações: Inflamação nos olhos (uveíte anterior); Dor no calcanhar (entesite); Alterações respiratórias quando há rigidez torácica.

2. Artrite Psoriásica

A artrite psoriásica ocorre em pessoas com psoríase, uma doença de pele que causa manchas avermelhadas e descamativas, especialmente no couro cabeludo, cotovelos e joelhos. Ela pode variar bastante: em alguns pacientes é leve e afeta poucas articulações; em outros, pode causar deformidades se não tratada.

Sintomas Principais

  • Dor, inchaço e rigidez em articulações grandes e pequenas;
  • Dedos das mãos e dos pés “em salsicha” (dactilite);
  • Envolvimento da coluna e das articulações sacroilíacas em alguns casos;
  • Alterações nas unhas (descolamento ou depressões).

3. Artrite Reativa

A artrite reativa aparece após uma infecção — geralmente intestinal, urinária ou genital.
O organismo elimina a infecção, mas o sistema imunológico continua “reagindo”, atacando as articulações.

Os sintomas geralmente começam entre 1 e 4 semanas após a infecção, e podem durar meses —em parte dos casos podendo se tornar crônicos.

Sintomas Principais

  • Dor e inchaço em articulações dos membros inferiores (joelhos, tornozelos);
  • Inflamação em tendões e calcanhar;
  • Dor lombar e rigidez;
  • Em alguns casos, inflamação nos olhos (conjuntivite ou uveíte) e alterações urinárias.

4. Espondiloartrite Enteropática

Nesse subtipo, a espondiloartrite está associada a doenças inflamatórias intestinais, como a Doença de Crohn e a Retocolite ulcerativa.

O curso das dores articulares pode acompanhar ou não as crises intestinais.
Tratar o intestino ajuda a controlar a inflamação nas articulações.

Sintomas Principais

  • Dor lombar e rigidez típicas da espondiloartrite;
  • Dor abdominal, diarreia e sangue nas fezes (por causa da doença intestinal);
  • Fadiga;
  • Inflamações em articulações periféricas.

5. Espondiloartrite Indiferenciada

É o termo usado quando o paciente apresenta sintomas típicos de espondiloartrite, mas ainda não preenche todos os critérios para um subtipo específico.
Pode ser uma fase inicial da doença, especialmente em pessoas jovens com dor lombar inflamatória, fadiga e exames alterados.

Com o tempo, pode evoluir para um subtipo definido, ou permanecer assim, com sintomas mais leves.

Como é Feito o Diagnóstico?

O diagnóstico das espondiloartrites pode ser desafiador.
Como muitas pessoas têm dores lombares comuns, o médico precisa estar atento aos sinais de alerta que diferenciam a dor inflamatória da dor mecânica (por esforço ou postura).

Sinais de Dor Inflamatória: começa antes dos 40 anos; dura mais de 3 meses; melhora com exercício e piora com repouso; acorda o paciente à noite; vem acompanhada de rigidez matinal.

Exames complementares: exames de sangue (pesquisa do HLA-B27 e provas de atividade inflamatória); raios-X e/ou ressonância magnética das articulações sacroilíacas, a depender de cada caso.

O diagnóstico precoce é essencial. Muitas pessoas convivem anos com dor inflamatória até receberem o nome correto para o que sentem — e isso pode atrasar o tratamento,  ocasionando deformidades sequelares e, portanto, piora da qualidade de vida.

Impacto na Qualidade de Vida

As espondiloartrites vão muito além da dor física: elas afetam o corpo, as emoções e a rotina diária.

1. Dor e Limitação Funcional

A dor lombar constante, a rigidez e a inflamação articular dificultam atividades simples: calçar os sapatos, virar o pescoço, levantar da cama ou permanecer muito tempo sentado.

espondilite anquilosante
espondiloartrites

2. Fadiga Crônica

A inflamação contínua e o esforço do corpo para lidar com ela causam cansaço persistente, mesmo após o descanso.

fadiga
espondiloartrites

3. Alterações no Sono e Humor

A dor noturna prejudica o sono.
Isso pode gerar irritabilidade, ansiedade e até sintomas depressivos.

4. Impacto Social e Profissional

Pessoas com espondiloartrite podem ter dificuldade em trabalhos que exigem esforço físico ou longos períodos em uma posição.
Muitos acabam reduzindo atividades sociais e laborativas por conta da dor e do cansaço.

5. Autoestima e Imagem Corporal

Casos de deformidade, limitação de movimentos ou manchas na pele (como na artrite psoriásica) afetam a autoconfiança e a autoimagem.

Os Benefícios do Tratamento

A boa notícia é que o tratamento das espondiloartrites evoluiu muito nos últimos anos.
Com o acompanhamento adequado, é possível controlar a inflamação, aliviar a dor e recuperar a funcionalidade.

Medicamentos Anti-inflamatórios: são usados nas fases iniciais para reduzir dor e rigidez. Mas, se a inflamação persiste, é necessário avançar para outras opções.

Terapias Biológicas e Alvos Sintéticos: são medicamentos modernos que bloqueiam moléculas inflamatórias específicas (como o TNF, IL-17, IL-23) trazendo um ótimo resultado! Promovem melhora da dor e redução da inflamação em coluna e articulações, levando a melhora na mobilidade e redução do risco de deformidades.

Fisioterapia e Exercícios: O movimento é parte essencial do tratamento! Alongamentos, fortalecimento muscular e exercícios posturais (como pilates e hidroginástica) ajudam a manter a flexibilidade, reduzir a rigidez e melhorar a postura e a respiração.

Apoio Psicológico e Educacional: viver com uma doença crônica exige adaptação.
O apoio emocional e a informação correta ajudam o paciente a participar ativamente do tratamento e a manter qualidade de vida.

Hábitos de Vida Saudáveis: evitar o tabagismo (que piora a inflamação); manter o peso adequado; dormir bem; ter uma alimentação equilibrada com alimentos anti-inflamatórios (frutas, verduras, peixes e azeite de oliva).

Por Que Tratar é Tão Importante?

O tratamento adequado muda o curso da doença!
Sem controle, a inflamação contínua pode causar:

  • Fusão das vértebras (anquilose);
  • Deformidades articulares;
  • Perda funcional e incapacidade laboral.

Mas com acompanhamento precoce e regular:

  • A dor é controlada;
  • O paciente volta a se movimentar;
  • A inflamação é interrompida;
  • E a qualidade de vida melhora de forma duradoura.

CONSIDERAÇÕES FINAIS: Viver bem com espondiloartrite é possível!

As espondiloartrites não são todas iguais — mas compartilham o mesmo desafio: o de conviver com uma inflamação crônica que, se não tratada, pode limitar a vida.
Por outro lado, o diagnóstico precoce e o tratamento correto transformam o futuro.

Com os avanços da medicina, é possível controlar a doença, aliviar a dor e viver plenamente, com liberdade de movimento e qualidade de vida.

Se você sente dor lombar persistente, rigidez matinal ou já foi diagnosticado com uma das formas de espondiloartrite, não deixe de realizar acompanhamento médico. A informação é o primeiro passo para o cuidado!

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